A Comarca de Luz e as Visitas Pastorais de Dom Manoel

Graças à energia elétrica e à emancipação do Aterrado desmembrado de Dores do Indaiá, a Villa Luz se tornava um centro comercial, industrial e rural atraindo investidores de várias regiões do Estado. Dom Manoel se preocupava com o desenvolvimento econômico e social, pois sabia ele que o bem espiritual deve crescer ao lado do material. Dom Manoel se consolidava como Pastor e Líder, como um grande administrador e um hábil político.  Com a criação do município Dom Manoel passou a articular a instalação da primeira Câmara Municipal de Luz e eleição do primeiro prefeito. Percorria os gabinetes dos magistrados em Belo Horizonte para que Luz se tornasse uma comarca. Eram tempos difíceis, mas o Bispo não desanimava e percorria a diocese em suas visitas pastorais como descrito por Dom Belchior em seu livro o Pastor de Luz, lançado em 1984: ”Um Pastor no sentido apostólico da palavra e, naquele tempo, andando a cavalo por este sertão imenso do Oeste Mineiro, percorrendo as cidades da diocese, as paróquias, capelas, aldeias e povoados, realizou a grande missão de semear luz e alegria de viver a fé, pois ele foi um verdadeiro missionário.” Padre Geraldo Mendes nas solenidades do cinqüentenário da ordenação sacerdotal de Dom Manoel assim se expressou: “Conjugam-se em Dom Manoel, de forma harmoniosa, a firmeza da pedra e a doçura do mel.” Dom Manoel não pregou a pobreza: viveu-a plenamente. No silêncio de sua humildade, sem alardes demagógicos, realizou a promoção humana por todas as paróquias da diocese. As palavras de Pio X podem se aplicar a Dom Manoel: “Pauper natus sum, pauper vivi, pauper mori cupio.” Pobre nasci, pobre vivi, pobre quero morrer. Como os Apóstolos, Dom Manoel punha os pés na estrada para levar a Boa Nova aos povos da diocese.

A visita pastoral à Paróquia de Estrela do Indaiá

Dentro de um planejamento, Dom Manoel fazia suas visitas por região para encurtar tempo e ficar mais próximo de seus diocesanos. Dores e Estrela eram visitadas na mesma semana. Em estradas de poeira ou barro, o bispo levava as palavras de Cristo aos fiéis. O caminho mais curto, pouco mais de 25 km, entre Dores e São Sebastião de Estrella (grafia original), era pelo Morro do Palhano. A travessia no rio só era possível por uma barca e havia a cobrança de um pedágio pelas autoridades de Dores do Indaiá. Entre as duas paróquias existiam os povoados do Dr. Zacharias, da Bernarda e do José Simões paradas obrigatórias para café, um bate papo e bênção apostólica. Dependendo do “bom humor e a pressa” de Dom Manoel, ele esperava o “frango com quiabo” enquanto rezava com os moradores o terço. Estrella tinha uma população estimada em 900 moradores, alguns comerciantes, uma máquina de beneficiar café e terras férteis margeando o Rio Indayá onde garimpeiros costumavam “bamburrar” algumas pepitas de diamante e ouro. Por não ter cemitério os sepultamentos eram feitos em Dores trazendo dificuldades para a população local. A morte de Máximo Cardoso, um plantador de algodão e sem condições para levá-lo até Dores, obrigou Antônio Fernandes a enterrá-lo perto de sua residência. O local, após ampliação, se tornou o primeiro cemitério de Estrela e recebeu as bênçãos de Padre Belchior Braga. Uma rodovia que ligava Serra da Saudade, Vale do Caixão, Guarda dos Ferreiros até São Gothardo, antigo Arraial da Confusão além dos Correios e Telégrafos ajudavam na comunicação do distrito. Graças às contribuições para as Obras das Vocações Sacerdotais (OVS), 12:600$ (Doze Mil e Seiscentos Réis) de Estrela e a Capella do Bahú contribuiu com 3:900$ (Três Mil e Novecentos Réis) a capela de Estrella foi elevada à Paróquia e Padre José Baptista se tornou o primeiro vigário que faleceu pouco tempo depois. Os padres Antônio Dias e Francisco Praxedes, que assumiram a paróquia, se empenharam nas construções da Matriz dedicada a São Sebastião e da Casa Paroquial. Em 1941 assumiu a paróquia Padre César Alves de Carvalho que, anos mais tarde, se tornaria o Reitor do Seminário Nossa Senhora da Luz. A visita pastoral durou três dias e Dom Manoel pegou a estrada seguindo rumo à Paróquia de Abaeté.

 Paróquia de Abaeté– Um pouco de história e a visita de Dom Manoel

Os primeiros moradores chegaram à região por volta de 1730 e tribos indígenas dos Abaetés já se encontravam no local. Garimpeiros que buscavam diamantes entraram em conflito com os índios e acabaram por dizimá-los. O significado do nome Abaeté tem gerado controvérsias sendo que algumas versões são: “O Bravo”, “Homem de Respeito” “Ilustre”, “Gente Feia”. Para o pesquisador Alves de Oliveira, Abaeté significa “Muita Gente”, numa alusão aos povos indígenas que ocupavam a área. A contribuição dos Jesuítas na catequização fez surgir muitos povoados e capelas pelo interior de Minas. A Paróquia de Morada Nova foi criada em 1852 e assumiu a capela de Marmelada, distrito existente desde 1842. Em 1860 as paróquias de Morada Nova e Dores do Indaiá, foram transferidas do Bispado de Pernambuco ao Bispado de Mariana e posteriormente para a Diocese do Aterrado. O aumento da população do Marmelada e a construção de uma nova igreja ajudaram na elevação da capela do distrito à paróquia consagrada a Nossa Senhora do Patrocínio. O distrito do Marmelada quando se emancipou recebeu o nome de Abaeté.

Os atuais municípios de Paineiras, Biquinhas, Morada Nova, Cedro, Quartel Geral, Dores do Indaiá, Tiros, São Gonçalo do Abaeté e São Gotardo faziam parte de seu território com uma extensão aproximada de dezessete mil quilômetros quadrados. Durante anos foi uma das maiores cidades da Diocese do Aterrado com mais de 42.000 habitantes. Foram seus vigários os padres: Miguel Kerdole, Belchior Braga, José Alves, José Gomes, João Ferreira, Octaviano de Moraes, Miguel Vital, Frei Izarias Leggio, e Frei Mário Cornellison.  As capelas existentes: São Sebastião das Paineiras, São José dos Patos, Santo Antônio das Tabocas, São Sebastião da Aldeia, Nossa Senhora do Carmo foram bentas pelo Monsenhor Vicente de Mendonça, que foi alçado ao cargo de Secretário Geral da Diocese do Aterrado substituindo Padre Parreiras, que havia retornado a Mariana. O patrimônio material das capelas constava de 32 hectares de campo e cultura e a Paróquia não possuía nenhum patrimônio em terras.

 O Patrimônio Religioso da Paróquia de Abaeté  

Em Abaeté Dom Manoel se queixava da pouca contribuição para a OVS. Dizia ele: “Como pode uma região tão rica contribuir com apenas Dez Mil e Quinhentos Réis para as vocações? As capelas contribuíram com Quatorze Mil Réis. Vamos abrir as mãos e contribuir mais.” No encontro com as autoridades locais fez um apelo para a construção da casa paroquial. Depois de muitos anos e muitas visitas a casa paroquial foi construída. A religiosidade na região deixava “animado” o senhor bispo que visitava o Conselho Particular Vicentino, suas nove Conferências e uma Vila dos Pobres. Ao Apostolado da Oração, Pia União das Filhas de Maria, Cruzada Eucarística, Confraria do Rosário, Congregação Mariana pedia orações para aumento das vocações sacerdotais. Em suas homilias incentivava a leitura dos periódicos católicos que circulavam na cidade. Missas, adorações ao Santíssimo e confissões eram realizadas durante as visitas pastorais. Abaeté era bem servida pela Rede Mineira da Viação (RMV), cuja estação terminal era na Barra do Paraopeba. Após uma semana em Abaeté Dom Manoel volta ao Aterrado e continua a luta para elevação de Luz à Comarca. 

Boa Leitura!

(Fontes: O Pastor de Luz, Arquivos Mitra Diocesana, Prefeitura de Abaeté e de Estrela – obs. Alguns nomes grafia original da época)