Seminário Diocesano de Luz: desafios e caminho no novo normal

Publicado em: 26 agosto 2020

A pandemia deu-nos um esbarrão, nos tirou certa segurança e nos fez mergulhar numa realidade além do que estávamos habituados. O que fora planejado para este ano caiu, no início, numa certa preocupação ampliada pela questão do que fazer agora. O mundo entrava numa nova normalidade e nós, como todos, tivemos que também experimentar este novo e o medo provocado por ele, as incertezas, porque não conseguíamos ver ou pelo menos não se via além da turbidez do momento.

Nossa caminhada vocacional de discernimento e resposta não poderia parar, não poderíamos ficar à deriva diante da tempestade, com medo, sem foco, por isso experimentamos o avanço deste novo normal como pescadores que saem para a pescaria. Não era o tempo de férias por isso o coração estava apertado e duvidoso, mas, gritava forte as palavras do Senhor, “Coragem! sou Eu. Não tenhais medo!” (MT 14, 27).

Vale ressaltar a importância da formação na vida dos vocacionados, dos seminaristas, este processo é o passo para que cada um reconheça seu lugar, pessoalmente e comunitariamente, redescobrindo o sentido de estar ali e para onde se deseja ir. É o tempo propicio para que se encante mais ainda com o mistério tornando-se discipulo e configurando-se a Cristo.

O processo foi de adaptação das dimensões que vivemos nas etapas formativas do Propedêutico, da Filosofia e Teologia, a dimensão espiritual, a vida comunitária, acadêmica, pastoral e as relações humanas afetivas. Tem sido um desafio colocar a tecnologia carregada pelo sentimento do mundo a serviço do amor que nos chama. É um desafio, mas não uma impossibilidade, estamos construindo neste novo normal nossa resposta ao chamado de Deus.

Diante das questões de cuidado, proteção e prevenção contra a Covid-19 fomos conduzimos ao seio familiar, voltamos ao lugar do primeiro amor. A família, Igreja doméstica, tornou-se nossa casa de formação, aqui nos encontramos nas dimensões do processo formativo e agora também nas dimensões de um outro processo, o da vivência familiar. Reencontramos as realidades e as vivemos mais de perto, redescobrimos o ser filho, irmão, as vezes conselheiros, o ser seminarista com seus deveres e rotinas dentro da família. Estamos experimentando as alegrias, as dores, os conflitos, a dinâmica própria de cada casa junto com as tarefas próprias da formação.

O ir para casa não foi um lavar de mãos, uma indiferença, mas um cuidado em gesto concreto, uma verdadeira experiência de pastoral porque neste novo a família se tornou mais ainda o lugar do discernimento, da acolhida e da oração. Cada um a seu modo tem a contribuir como peça no mosaico da vocação sacerdotal.

A primeira dificuldade não se mostrou individualizada, mas geral, diante de uma medida feita as pressas e repassada sem muitos detalhamentos o que fazer? Continuar em uma cidade que facilmente se tornaria o centro da nova doença no estado? Voltar para o seio da família temendo poder contagiar, mesmo sem saber, quem amava? A medida cautelar e preventiva de fechamento da maior Universidade Católica do mundo não era cogitada realmente no ambiente que abraçou o Instituto como segundo lar de seus seminaristas, o medo era inevitável, o que viria a se fechar em seguida à universidade, a rodoviária, as estradas, a circulação? Haveria até mesmo itens básicos à venda depois que o medo se tornasse geral e que a população da terceira maior metrópole nacional tentasse estocar mantimentos? A decisão de voltar ao lar se tornou a mais aceita, afinal a grande metrópole em que o início dessa história se passa ainda não apresentava nenhum caso confirmado daquilo que hoje a transformaria no centro com mais mortes de toda Minas Gerais.

Conseguindo todos se encaminharem para as suas cidades surge um segundo desafio, como fazer aquilo que era funcional dentro de sala funcionar remotamente? O calendário não permitia furos e com isso a instrução aos professores e alunos de como fazer da nova plataforma a ferramenta possível de estudo, devido ao curto tempo para tantos ajustes, não fora suficiente; professores e alunos foram colocados diante de um grande desafio, pois o sistema remoto cobrava recursos e aptidões a serem transportados para o campo acadêmico virtual que em muitos casos não existia; as dificuldades técnicas se mostravam frequentes e ainda hoje não foram completamente superadas, mas engatinhando as coisas foram tomando um rumo aceitável. O caminho para não se afogar no turbilhão de novas informações e modalidades de ensino se mostrou na cooperação, juntos, turmas que em alguns casos se conheciam há poucos dias, conseguiram vencer o primeiro semestre letivo de 2020.

Mas a formação de um bom seminarista não é focada apenas no âmbito acadêmico, portanto, como manter os tantos outros aspectos da vida daquele que se destina à família diocesana, como manter a partilha, a união e as orações comunitárias? Novamente a tecnologia se mostrou como a grande auxiliadora para o prosseguimento da formação, com transmissões comunitárias de segunda a sexta, e algumas sugestões de lives aos sábados, o percurso da casa que tem como símbolo o barco a pescar continuou em águas não tão mansas.

O fechamento físico do Seminário Nossa Senhora da Luz foi em poucos dias acompanhado com o fechamento dos templos diocesanos, ainda que a medida não fosse entendida por todos, a Diocese de Luz viu com carinho e proteção a condição de seus filhos, um processo doloroso, mas atrelado ao amor visando a vida, tema abordado pela Igreja do Brasil em 2020 na Campanha da Fraternidade.

Hoje, quase cinco meses após o fechamento a formação continua e com ela o pedido insistente: reze pelas vocações. Que Deus nos abençoe e que, diante dos desafios e das adversidades da vida encontradas nas águas mais turbulentas, nos sustente na fé, esperança e caridade.

Edson Brenner Lara Rosa, seminarista diocesano no período da Filosofia.

Pedro Henrique Silva Alaércio, seminarista diocesano no período da Teologia.

Revisão:

Pe. Marcos Tiago da Silva, reitor nos períodos da Filosofia e Teologia.

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