QUARESMA E CF 2024

Na quaresma, inspirados no Senhor, que após o Batismo por João Batista e a unção pelo Pai com o Espírito, passou “quarenta dias” em oração, dialogando o Pai sobre sua vocação e missão, que aceitou e levou até a PÁSCOA, ou seja a sua paixão, morte na  cruz e ressurreição!

Durante esses longos e profundos dias, Jesus praticou intensamente, sem farisaísmo, doença espiritual daquele tempo, a ORAÇÃO, o JEJUM como penitência, e assumiu o dom total de si à vontade do Pai, deixando-se guiar pelo Espírito.

  1. Jesus foi tentado: creio eu, não é por acaso que mesmo sendo divino, Jesus admitiu ser tentado na sua condição humana, e que curioso! O tentador se serve de passagens bíblicas. E nem é por acaso, que as tentações que Jesus enfrenta são as mesmas principais seduções que sofremos no mundo de hoje:
  • o desânimo vocacional, diante dos desafios que pode levar à fuga no comodismo e busca de conforto (transformar pedras em pães),
  • a sedução das glórias humanas, da vaidade e ilusões da busca de poder, prazeres e prestígios humanos, ofertas enganosas do mundo, mas que matam a liberdade profética do enviado, fazendo-o refém dos poderosos “tudo isso te pertencerá, se prostrardes diante de mim” (mostrando os reinos do mundo)
  • a tentação religiosa, a busca de práticas religiosas sem discernimento eclesial, na pretensão de pormos Deus a serviço de nossos interesses, em vez de servir aos interesses de Deus, em vista do projeto do Reino, que é vida plena para todos, não só para mim ou para alguns poucos. “não tentarás o Senhor Deus” (tentação na torre do templo)

 

  1. Jesus nos remete às nossas raízes, à nossa verdade constitutiva e combate o farisaísmo

No texto de Mateus 6,1-6.16-18, que ouvimos a quarta- feira de Cinzas, Jesus fez aquela forte catequese sobre a oração, o jejum, e a esmola, mostrando seu valor espiritual, mas combatendo toda atitude farisaica que perverte estas práticas religiosas, tornando-os apenas obras humanas, já recompensadas humanamente, sem mérito diante de Deus, perdendo-se a recompensa do Pai.

2.1 Levar a sério estas práticas, Oração, Jejum e Esmola, tal como Jesus ensina, nos levam à verdade de nossas RAIZES, ou seja:

Nossa origem divina, (imagens e semelhança de Deus); nossa raiz do cosmos, (nosso composto orgânico); e nossa raiz da sociedade (um pai e uma mãe).

Assim, estas três práticas bem vividas, nos levam à nossa raiz e verdade humana mais profunda e constitutiva: a filiação divina, (oração) e nossa relação cósmica (jejum); nossa relação social (esmola)

  • A ORAÇÃO nos remete à nossa origem divina (Deus), dimensão que funda as nossas outras duas: o cosmos e a sociedade. Rezar é reconhecer nos existencial dependência divina. É reconhecermos nossa realidade criatural. Pretender autonomia é repetir o desastre do paraíso! É pretender nos proclamar deuses! E se negarmos esta origem-raiz, também perderemos o sentido da própria vida e da história, não encontraremos o equilíbrio nem na relação com o cosmos e nem com a sociedade.
  • O JEJUM nos reporta à função oral, nossa relação cósmica, nossa ligação com o mundo, com o qual estamos em relação oral direta pela alimentação, desde o ventre e os seios. O jejum me convida a regular minha função oral, quem tem a ver com minha relação cósmica. Basta lembrar a primeira tentação no “paraíso”… Adão e Eva… tentados pela comida de uma fruta… a ter os OLHOS ABERTOS…

Para Jesus, o JEJUM bem feito, e em segredo, além de regular o descontrole na relação com a MATÉRIA CÓSMICA, regula minha exagerada demanda de me fazer NOTAR diante dos outros, como acontecia: aparência de fidelidade à lei.

  • A ESMOLA nos abre à segunda origem do nosso ser: a sociedade, da qual fazemos parte por um pai e uma mãe.

Sociedade esta, nem sempre construída na justiça e pela paz, onde frequentemente prevalece a lei do mais fortes, do mais ricos e mais poderosos. Dai a tentação de nos brindar, desconhecendo os clamores e gemidos dos injustiçados (Xavier THEVENNOT, (Águas profundas, edição francesa)

Neste sentido, pela esmola expresso o meu compromisso os outros, com o qual eu partilho a mesma humanidade, a mesma dignidade, os mesmos direitos…

Pela esmola, caridade, anseio de justiça e solidariedade, eu me deixo tocar pela vulnerabilidade do semelhante, que me humaniza e com ele me confraternizo, reconhecendo que sou chamado a ser solidário com a sociedade, e responsável pelos meus irmãos e jamais indiferente, alterofóbico (ver nos outros ameaça), ou aporofóbico (ter fobia dos pobres).

  1. Por isso a CONVERSÃO A NÓS PEDIDA NESTA QUARESMA, livre de farisaísmos, precisa passar pelas três práticas: da oração, do jejum e da caridade, nesta perspectiva refletida. Uma prática sem a outra, não se sustenta. Dai que nos situamos, sem escusas, na nossa Campanha da Fraternidade 2024: Fraternidade e amizade social. Somos todos irmãos e irmãs!

Esta CF está inspirada em Mt 23,8, texto em que Jesus prossegue o mesmo combate todas as formas de farisaísmos para viver uma fraternidade verdadeira e real.

Essa campanha atual questiona, profundamente, nossa fraca vivência fraterna- e nos provoca, em sintonia com o Papa Francisco a alargar a nossa tenda da comunidade, e viver a fraternidade e a AMIZADE SOCIAL.

Isso ocorrerá, nos garante o Papa Francisco na “Fratelli Tutii” e na “Evangelii Gaudium”, se construirmos um mundo aberto, onde nos escutamos uns aos outros, onde os pobres tiverem lugar, voz e vez; onde os diferentes e os que pensam diferente de nós forem respeitados; quando os pontos de vistas opostos forem tidos que enriquecimento. O que importa é sonharmos juntos e trabalharmos juntos para uma sociedade mais humana, justa, fraterna, solidária, capaz de viverem harmonia social, em respeito. Assim começaremos a ter um outro mundo possível. Seremos, então, seres de paz, capazes de viver e conviver numa “cultura de encontro”, sem as terríveis agressividades e guerras que assistimos horrorizados, sem tantas desumanas violências e desigualdades.

 

Luz, 1° de março de 2024.

 

+ José Aristeu Vieira
Bispo Diocesano de Luz.