Qual a importância da fraternidade para a Igreja?

Publicado em: 1 fevereiro 2021

Com a Encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti, o termo fraternidade tornou-se conteúdo de muitas reflexões, debates, estudos e conversas. O Pontífice sabe que, vivemos em um mundo onde estamos todos contra todos e que, neste contexto marcado pela competição, pelo individualismo e pela indiferença, não basta sermos solidários; é preciso que sejamos fraternos, ou seja, avançar da solidariedade para a fraternidade.

O tema da fraternidade é constante e insistente na comunidade cristã; sublinha-se seu caráter essencial, afirmando que não é possível ser cristão autêntico quando não se vive a fraternidade, e que não se pode testemunhar nenhum apostolado eclesial sem uma vida fraterna pessoal. Afinal, foi o próprio Senhor que nos ensinou a chamar Deus de “Pai Nosso”. Rezar o “Pai-Nosso” é afirmar que somos todos irmãos e irmãs.

Deus é liberdade pura de amor, “Deus é amor” (1Jo 4, 8), e nós fomos criados na superabundância de vida e amor de Deus. Esta é a finalidade de sermos criados: nós queremos nos realizar no amor. Não basta acumular conhecimento se não se cresce na liberdade e responsabilidade, se não se cresce no amor de Deus e na fraternidade.

Qual a importância da fraternidade para a Igreja?

Foto ilustrativa: Prostock-Studio by Getty Images

Aquele que permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele (cf 1Jo 4, 16). Da inseparabilidade do amor a Deus e ao próximo e da prioridade psicológica do amor fraterno, pois, amar verdadeiramente o próximo é viver uma opção fundamental por Deus.

O amor cristão conhece três relações (1João 4,19-5,4): o amor de Deus para conosco; o nosso amor para com Deus, e o nosso amor para com os irmãos. O amor a Deus e aos irmãos estão intimamente ligados: “quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (v. 21). O verdadeiro amor a Deus manifesta-se no amor aos irmãos: “aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (v. 20). O amor cristão tem a sua origem em Deus, porque “Ele nos amou primeiro” (v. 19) como verdadeiros filhos. Pertence-nos agora corresponder ao amor e gerar amor. Não foi o homem que alcançou a Deus com o seu amor, mas o contrário: Deus veio ao nosso encontro, em Jesus. Se amamos os outros, temos a prova real de que Deus nos alcançou.

Afinal, o que é fraternidade?

Etimologicamente, a origem da palavra fraternidade vem do latim fraternĭtas, “relação de parentesco entre irmãos”. Qual é o parentesco entre nós? Fomos criados “à imagem e semelhança de Deus”, tornamo-nos filhos e filhas no Filho: “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá – ó Pai! Assim já não és mais escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro: tudo isso por graça de Deus” (Gálatas 4,4-7); e Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai: “Vós deveis rezar assim: Pai nosso que estás nos céus” (Mt 6,9). Por isso, não pode haver fronteiras que nos impeçam de amar como irmãos e irmãs.

A fraternidade expressa a dignidade de todas as pessoas, consideradas irmãos e irmãs, iguais e de plenos direitos. É a fraternidade que nos torna reciprocamente uns responsáveis pelos outros, por ela as pessoas não podem mais basear suas vidas sobre as coisas, mas sobre as relações de amor que mantêm em comunhão umas com as outras.

A fraternidade nos impede de sermos indiferentes diante da gritante necessidade de irmãos e irmãs que sofrem por vários motivos, da enorme disparidade econômica entre pobres e ricos, da indiferença globalizada com os mais vulneráveis. A fraternidade resulta do amor e provoca mudança interna nas pessoas. O sentimento de irmandade, fruto deste amor que vem de Deus, caracteriza-se por um modo de colocar-se diante do outro que gere relações de reciprocidade e amizade social. Só vai entender isso quem se deixar renovar, a cada dia, pela força do Evangelho e a abertura ao Espírito.

O amor fraterno deve ser entendido na sua abertura a todos e não se compactua com as várias formas atuais de descartar ou ignorar os outros. A fraternidade cristã é uma forma concreta de amar que vai além de qualquer tipo de barreira ou discriminação. Precisa de rostos concretos, fazer-se dom de si mesmo aos outros e de uma maior capacidade de acolher os outros; significa voltar a atenção para o outro e, portanto, procurar o seu bem gratuitamente.

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Onde fundamenta a fraternidade cristã? Qual a sua importância para a Igreja?

O fundamento da fraternidade cristã está no reconhecimento do valor de cada pessoa humana amada e chamada a ser filho e filha de Deus; na consciência que não são órfãos e, portanto, fraternos. O amor ao qual somos chamados é o amor com o qual Deus mesmo nos amou por primeiro. “É no amor de Deus que o amor do próximo tem a sua fonte. Se amamos a Deus, nosso Pai, daí se seguirá que amaremos todos os seus filhos nossos irmãos. ‘Quem ama o Pai, diz São João, amará também aqueles que ele gerou’ (Jo 5,1).

É preciso ter o “o olhar de Deus”, pois, “Deus não olha com os olhos, Deus olha com o coração. E o amor de Deus é o mesmo para cada pessoa” (Fratelli Tutti, 281); “somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração de Deus e o amor ao próximo”. A fraternidade é um valor basilar das relações, com a necessidade para o homem de sair de si mesmo, de se realizar na entrega, no encontro com os demais.

Fraternidade é uma construção moral, não é espontânea, não é uma imposição da natureza. Fraternidade é uma categoria próxima que ultrapassa todas as barreiras do egoísmo, da indiferença, do individualismo etc. Fraternidade é a identidade fundante de cada pessoa enquanto filho e filha de um Deus que é Pai e comunga a todos. Pertencemos a um mundo em que todos estamos interconectados a partir deste laço da fraternidade.

Hoje, sentimo-nos tristes, com medo, deprimidos e frustrados, porque a violência, os homicídios, os roubos e o terrorismo marcam com sangue e sofrimento a vida de tantos dos nossos irmãos e irmãs, ou porque os pobres e os excluídos são esquecidos e colocados à margem do caminho, ou porque parece que a sociedade globalizada se constrói com egoísmo, com indiferença e com exclusão. Vivemos em uma realidade fragmentada, excludente, necessitada de recuperação, deste laço humano da fraternidade.

Assuma a lógica de Deus

A realidade que está diante de nós nos desafia, ainda mais, a assumirmos a mesma lógica de Deus, lógica de benevolência, de misericórdia, de perdão, de amor sem limites, e a não olharmos para os outros homens e mulheres como inimigos que merecem ser destruídos, mas irmãos e irmãs que precisamos amar.

Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor fraterno, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado. Lembremos da pergunta inicial que levou Jesus a contar a “Parábola do Bom Samaritano” (Lc 10, 25- 37): “o que fazer para alcançar a vida eterna?” A conclusão é óbvia: para alcançar a vida eterna é preciso amar a Deus e amar o próximo. “Quem é o meu próximo?” É qualquer um que necessita de nós; o “próximo” é qualquer irmão caído nos caminhos da vida que padece, para se levantar, da nossa ajuda e do nosso amor. Jesus conclui ordenando aos seus seguidores: “Vai, e também tu, faze o mesmo” (Lc 10,37).

Ser fraterno é ser irmão e irmã, é ter compaixão; é ver o irmão com os olhos do coração; é ver, a partir das entranhas, o próximo que padece e mover-se em direção e fazer algo para aliviar o seu sofrimento: Cristo identificou-Se com os pequenos e com os pobres, aos quais anuncia a Boa Nova: ‘‘Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).

Fraternidade universal

Cabe a cada um, primeiramente, “crer no amor de Cristo” (1Jo 4,16) e derrubar as barreiras que porventura obstacularem a chegada desse amor até os nossos irmãos e irmãs de hoje, isto é ser fraterno.

Santo Agostinho formulou muito bem a estreita relação entre os dois mandamentos amar a Deus e amar aos irmãos (Mc 12,29-31; Mt 22,34-40; Lc 10,25- 28): “Que ninguém diga: Não sei o que amar. Que ele ama o seu irmão e assim amará o próprio amor. De fato, ele conhece melhor o amor que o faz amar, do que o irmão que ele ama. Ele pode então conhecer Deus melhor do que o seu irmão; muito melhor, porque Deus é mais presente; muito melhor, porque é mais íntimo; muito melhor, porque está mais certo. Abraça o Deus de amor, e abraçarás Deus por amor”.1 O amor
ao próximo praticado com a radicalidade pedida por Jesus não é possível sem a força que provém do amor de Deus.

Nisso consiste a importância das religiões para a construção da fraternidade e da amizade social, ou seja, da fraternidade religiosa pode surgir uma fraternidade universal.

Referências:

1 SANTO AGOSTINHO, De Trinitate, VIII, 8, 12.

Fonte: CN

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