Aterrado antes da criação da Diocese

A história da cidade de Luz, desde os tempos do Aterrado, se mistura com a religiosidade de sua população, pequena na verdade, e moradores das vilas, distritos e cidades vizinhas. Tudo começou com a “Picada de Goiás” que atraia pessoas interessadas em procurar ouro na bacia do São Francisco. Com o aumento da população na freguesia do Aterrado, o Bispado de Mariana criou a Paróquia de Nossa Senhora da Luz do Aterrado em maio de 1856, desmembrado da freguesia de Bambuí. O primeiro vigário, como dito em crônica anterior, foi Padre Manoel Martins Ferraz. Não se tem registro se Padre Manoel era um vigário “colado” ou “encomendado”. Para esclarecimentos aos leitores vamos à diferença entre vigário “colado” e “encomendado”. Os vigários “colados” eram sacerdotes indicados para assumir em caráter permanente uma paróquia canônica e legalmente constituída. O cargo existiu durante o período monárquico, quando estava em vigor o sistema do padroado, em que Igreja e Estado compartilhavam responsabilidades na administração da vida religiosa e civil. Os vigários “colados” eram funcionários do Estado, assumiam suas paróquias após prestarem um concurso público e receberem a colação, daí o seu nome. Possuíam uma sólida cultura, não podiam ser removidos a não ser por vontade própria e eram incluídos na folha de pagamento estatal, recebendo um salário chamado “côngrua”, a partir do dízimo recolhido dos fiéis pelo poder civil. Foi extinto com a proclamação da República no Brasil. Vigário “encomendado” era sustentado pelos fiéis, administrava a paróquia em caráter interino sendo submisso ao poder do bispo. Os vigários “encomendados” faziam aumentar o poder dos bispos, que os transferiam constantemente, já que não podiam fazer o mesmo com os colados. Com a criação do município de Santo Antônio do Monte em 1859 a freguesia do Aterrado foi desmembrada de Formiga e anexada ao novo município. A anexação serviu para que muitas famílias de Santo Antônio e Pitangui fizessem investimentos no Aterrado e Esteios. Começava um novo tempo para o Aterrado.

O Aterrado no final do Século XIX

O arraial do Aterrado era pequeno e em suas construções encontravam-se com poucas casas de telhas, todas elas em péssimo estado de conservação. Subindo a estrada em sentido Dores do Indaiá, Olaria e Manda Saia a maioria eram ranchos cobertos de sapé. O mesmo ocorria no sentido do Morro do Jorge e também em direção ao Córrego da Velha. A Capela, que fora construída pelos donos das Fazendas Cocais e Camargos, dera lugar à outra onde era o ponto de encontro dos fiéis durante os cultos dominicais. Coberta de telhas, de duas águas, com cinco janelinhas ao alto, uma cruz de madeira conhecida por cruzeiro em sua frente e um sino numa armação do lado esquerdo. Havia ainda a Capela de Nossa Senhora do Rosário, erguida bem antes do Aterrado se tornar paróquia. Obra dotada de certo gosto artístico, pintada em cores no estilo barroco, ficava nas proximidades do Grupo Sandoval de Azevedo. Provavelmente ali se realizava a festa do congado, embora não haja registro sobre essa festa na época. O local que servia de cemitério, visto que era proibido o sepultamento dentro da igreja, ficava nas imediações do atual Grupo Sandoval de Azevedo, cercado por aroeira e em péssimo estado de conservação. Para dar um sepultamento digno aos fiéis a Igreja construiu um novo campo santo onde hoje se encontra o atual cemitério. A cruz de madeira, que ficava em frente a capela, foi levada e colocada em frente ao novo cemitério. Os corpos que estavam sepultados no antigo cemitério foram transferidos para o novo local sendo abençoados por Padre Fortunato.

Aterrado – o surto do progresso

Com a criação do município de Dores do Indaiá em 1881 o Aterrado e Córrego Danta foram anexados ao novo município, enquanto o distrito de Esteios continuava a pertencer a Santo Antônio do Monte. Atraídos por terras baratas e férteis diversas famílias vieram para o Aterrado e Esteios. A chegada do Cel. José Tomaz de Oliveira (Santo Antônio do Monte), Cel. Antônio Gomes de Macedo (São Gonçalo do Pará), Cel. Joaquim Mendes de Carvalho, Professor Josino Rodarte (Campo Belo) e do professor Joaquim Alves Costa (Prof. Botinha) em Esteios trouxeram ares de progresso e de modernidade para o pequeno povoado. Aos poucos autoridades foram sendo constituídas como Juízes de Paz: Cel. José Tomaz de Oliveira, que foi eleito vereador em Dores do Indaiá representando o Aterrado; Francisco Rezende; Joaquim Pedro da Costa; Escrivão do Registro Civil, Miguel Archanjo Rodrigues; Delegado de Polícia, Alfredo Costa; Delegado Distrital, Francisco Borges; Agente do Correio, Sancho Medeiros de Menezes e Prof. João Calixto de Assumpção. Tudo caminhava para o Aterrado se tornar uma grande cidade por causa das construções, plantações de café, arroz, feijão, milho, criação de bovinos e suínos. A criação da Conferência de São Vicente de Paulo por Faustino Teixeira, de Bom Despacho, veio para ajudar, através dos vicentinos, os pobres do Aterrado. Os primeiros vicentinos foram: Antônio Gomes de Macedo, Miguel Moreira de Macedo (Macedinho), Alexandre de Oliveira Du, Gil Pereira, Joaquim Botinha, José do Egito Cardoso e Ramiro Botinha. Tempos depois foi criado o Apostolado da Oração.

Primeira visita Pastoral de Dom Silvério

Naquela época a visita de um bispo demorava anos para ser feita. A paróquia de Luz do Aterrado pertencia ao Arcebispado de Mariana, cujo Arcebispo era Dom Silvério Gomes Pimenta. A visita pastoral ao Aterrado se deu no ano de 1904 e as autoridades do Aterrado, comandadas por Antônio Gomes de Macedo e Cel. José Tomaz, se fizeram presentes na recepção a Dom Silvério Gomes que chegara à paróquia de Luz pelo Morro do Jorge e as festividades da visita duraram mais de uma semana. A comitiva do Arcebispo era composta por muitos padres, dentre eles se destacava a figura do jovem Padre Joaquim das Neves Parreiras, cuja amizade com Dom Silvério vinha de muito tempo. A paróquia de Luz contava com os serviços espirituais de Padre José Rodrigues Paiva, vigário de Córrego Danta, que uma vez por mês se dirigia ao Aterrado para os atos religiosos como celebrar missas, batizados e casamentos. Reunidos com Dom Silvério as autoridades pediram um padre que pudesse estar presente na paróquia todos os dias e sugeriram o nome de Padre Parreiras para futuro vigário. Dom Silvério atendeu ao pedido dos paroquianos e em dezembro de 1904, Padre Parreiras se tornava vigário do Aterrado. Seu dinamismo logo se fez notar ao percorrer toda a freguesia, visitando casa por casa para conhecer seus paroquianos. Em seus sermões e nas visitas aos meios rurais  Padre Parreiras incentivava o plantio da lavoura de cereais, como meio para desenvolver o pequeno Aterrado.

O Arraial do Aterrado aceita o desafio de se tornar diocese

Após dez anos, Dom Silvério volta ao Aterrado para uma nova visita pastoral. A recepção foi mais pomposa do que se podia fazer, como prova de estima e veneração ao ilustre visitante. Os animais foram retirados da liteira e o povo conduziu Dom Silvério nos ombros desde o Ribeirão do Jorge até a casa paroquial, numa distância de mais de um quilômetro. Na frente da recepção estava o incansável Padre Parreiras. Dom Silvério em conversa com Padre Parreiras falou no desejo de dividir a diocese de Mariana. Consultado as várias cidades da região nenhum padre quis aceitar o desafio de se tornar sede do bispado. Parreiras  perguntou se era possível um arraial se tornar sede de bispado. Com a resposta afirmativa, desde que se constituísse um patrimônio, Parreiras, em consultas aos amigos e autoridades e recebendo a permissão de seus pares aceitou o desafio para tão grande encargo. Novos ventos de progresso iriam soprar sobre o aterrado. Assunto para outras crônicas.

Boa leitura! (Fontes: Dom Belchior em O Pastor de Luz, Djalma Azevedo em Um Pouco de Luz e Edelweiss Teixeira).

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