Ano de São José

Publicado em: 14 dezembro 2020

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

O Papa Francisco – devoto ardoroso de São José e responsável por incluir esse grande santo nas Orações Eucarísticas II, III e IV do Missal Romano, conforme Decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos emitido em 1º de maio de 2013 – decretou que de 8 de dezembro deste ano a 8 de dezembro de 2021 é o Ano de São José. Além das indulgências deste tempo santo, somos convidados a conhecer mais e melhor a São José venerado com o culto de protodulia.

De início, notamos que a Escritura fala pouco de São José. Algumas de suas passagens nos parecem, porém, suficientes para compreender aquele que a Igreja chama de “homem justo”. Vejamos: Mt 1,16: “Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo”; Mt 1,18-20: “Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: ‘José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo’” e continua, no versículo 24, como conclusão dos fatos: “Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa”.

Mateus narra também a fuga de Maria e José com o Menino Jesus para o Egito por medo do rei Herodes, após a partida dos magos, segundo Mt 2,13-15: “Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar’. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Do Egito chamei meu filho”. Ainda em Mt 2,19-23: “Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino’. José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Será chamado Nazareno”.

Já Lucas, 2,1-5, assim diz: “Naqueles tempos, apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Esse recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa, Maria, que estava grávida”. Dando um passo além, o mesmo evangelista diz – em 2,16 – que, no nascimento de Jesus numa manjedoura, os pastores, avisados pelos anjos, “Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura”. No mesmo capítulo, Lucas aponta indiretamente para a presença de São José ao lado de Maria e do Menino Jesus (cf. vers. 22. 27. 33. 39. 41. 42-43. 48. 51). Formam, assim, a Sagrada Família, modelo às famílias de todos os tempos.

Estas poucas citações demonstram São José como homem justo, temente a Deus e protetor valioso de Jesus-Menino e de Maria, sua mãe. Deus escolhe para fazer acontecer seu grande projeto divino os meios humanos mais simples. Como ensina a Igreja, sem ter de precisar de nós, Deus quer precisar de nós para realizar o seu grandioso projeto de amor e salvação. Projeto do qual São José participa com seu modo discreto, quase anônimo, e com poucas palavras…, mas é venerado, na Igreja, com o culto de protodulia, como afirmamos; ou seja, dentre todos os santos e santas, o primeiro (prõtos) a merecer deferência, depois da grande veneração (hiperdulia) à Mãe de Deus, Maria Santíssima, é São José, o pai adotivo de Jesus. Dentre as várias devoções populares a esse grande santo temos o de ser ele o Padroeiro da boa morte, por ter expirado nos braços de Jesus e Maria, São José de botas, demonstrando estar sempre pronto a proteger a família e a Igreja, São José dormindo, a apresentar a serenidade nascida da confiança inabalável em Deus etc.

Levando em consideração tudo isso – além do que diz a Tradição – a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos por um Decreto, emitido em 1º de maio de 2013, diz: “em virtude das faculdades concedidas pelo Sumo Pontífice Francisco, de bom grado decreta que o nome de São José, esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, seja, a partir de agora, acrescentado na Oração Eucarística II, III e IV da terceira edição típica do Missal Romano. O mesmo deve ser colocado depois do nome da Bem-aventurada Virgem Maria como se segue: na Oração Eucarística II: ‘ut cum beata Dei Genetrice Virgine Maria, beato Ioseph, eius Sponso, beatis Apostolis’, na Oração Eucarística III: ‘cum beatissima Virgine, Dei Genetrice, Maria, cum beato Ioseph, eius Sponso, cum beatis Apostolis’; na Oração Eucarística IV: ‘cum beata Virgine, Dei Genetrice, Maria, cum beato Ioseph, eius Sponso, cum Apostolis’. Para os textos redigidos em língua latina utilizam-se as fórmulas agora apresentadas como típicas. Esta Congregação ocupar-se-á em prover à tradução nas línguas ocidentais mais difundidas; para as outras línguas a tradução deverá ser preparada, segundo as normas do Direito, pelas respectivas Conferências Episcopais e confirmadas pela Sé Apostólica através deste Dicastéri

Surge agora a pergunta: por que o Santo Padre, o Papa Francisco, escolheu 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição, para o início do Ano Josefino? – Porque ele marca o 150º aniversário da promulgação do decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, intitulado Quaemadmodum Deus, com o qual o Beato Pio IX, em 1870, declarou São José, padroeiro da Igreja universal. Aquele Papa, no tempo histórico conturbado da unificação da Itália, recorreu ao casto esposo da Virgem Maria e pai adotivo do Salvador, de modo que, no citado documento, se pode ler o seguinte: “Decreto de Sua Santidade o Papa Pio IX. À Cidade [de Roma] e ao Mundo. Da mesma maneira que Deus [Quaemadmodum Deus] havia constituído José, gerado do patriarca Jacó, superintendente de toda a terra do Egito para guardar o trigo para o povo, assim, chegando a plenitude dos tempos, estando para enviar à Terra o Seu Filho Unigênito, Salvador do Mundo, escolheu outro José, do qual o primeiro era figura, fê-lo Senhor e Príncipe de sua casa e propriedade e elegeu-o guarda dos seus tesouros mais preciosos”.

“De fato, ele teve como esposa a Imaculada Virgem Maria, da qual nasceu, pelo Espírito Santo, Nosso Senhor Jesus Cristo, que perante os homens dignou-se ter sido considerado filho de José e lhe foi submisso. E Aquele que tantos reis e profetas desejaram ver José não só viu, mas com Ele conviveu e com paterno afeto abraçou e beijou; e além disso, nutriu cuidadosamente Aquele que o povo fiel comeria como Pão descido dos Céus para conseguir a vida eterna. Por esta sublime dignidade, que Deus conferiu a este fidelíssimo servo seu, a Igreja teve sempre em alta honra e glória o Beatíssimo José, depois da Virgem Mãe de Deus, sua esposa, implorando a sua intercessão em momentos difíceis”. Feito este belo resumo da devoção a São José, quis Pio IX “confiar a si mesmo e os fiéis ao potentíssimo patrocínio do Santo Patriarca José, quis satisfazer os desejos dos Excelentíssimos Bispos e solenemente declarou-o Patrono da Igreja Católica”.

Eis que, em 2020, Francisco comemora os 150 anos do Decreto Quaemadmodum Deus com a publicação da Carta Apostólica Patris Corde [Coração de Pai], de 8 de dezembro de 2020, que deve ser lida na íntegra. Volto-me, agora, às indulgências concedidas para este Ano Josefino, de acordo com a fala de Dom Krzysztof Józef Nykiel, regente da Penitenciaria Apostólica. Explica ele que “o decreto da Penitenciaria Apostólica pretende especificar a forma como o dom da indulgência plenária é concedido aos fiéis por ocasião do Ano de São José, em virtude do que o próprio Papa Francisco estabeleceu. Portanto, a Penitenciaria concede a indulgência plenária aos fiéis que, além das condições habituais previstas pela Igreja – confissão sacramental, comunhão eucarística e a oração segundo com as intenções do Santo Padre – pratiquem cinco atos particulares de piedade ou obras de caridade ligadas ao modelo representado pelo pai putativo de Jesus. As obras indulgenciais consistem em abrir-se à vontade de Deus, em tomar tempo para a meditação pessoal ou para participar de um retiro espiritual, seguindo o exemplo de José, sempre pronto a aceitar a vontade de Deus; em fazer-se instrumento de justiça e misericórdia do Pai através da realização de obras de misericórdia corporais e espirituais, como José, o ‘homem justo’ (Mateus 1,19); na renovação da comunhão com Deus dentro da própria família e entre os noivos, através da recitação do Santo Terço; na santificação do próprio trabalho confiando-o à intercessão de São José ou rezar por aqueles que são privados de uma ocupação digna; na intercessão pelos cristãos que sofrem formas de perseguição através da oração das ladainhas a São José ou outras fórmulas de oração próprias dos ritos das Igrejas Orientais”.

Perguntado se o Ano Josefino leva em conta o contexto de pandemia, Dom Nykiel respondeu: “Certamente. Invocar o patrocínio de São José à Igreja universal significa, antes de tudo, elevar a ele pedidos de intercessão para pôr um fim a esta pandemia, que está causando tanto sofrimento e dor em todo o mundo, tanto em termos de vítimas como de doentes, assim como em suas pesadas consequências sociais e econômicas. Além disso, no texto do decreto é feita menção especial àqueles que, devido às consequências do contágio, estão impossibilitados de preencher as condições para receber indulgência (os idosos, os doentes, os moribundos). Confiando na intercessão de São José, no conforto dos doentes e do santo padroeiro da boa morte, a indulgência se estende a todos eles se, com espírito desapegado de qualquer pecado e com a intenção de cumprir as condições o mais rápido possível, recitarem um ato de misericórdia em honra do Santo” (Cinco gestos para assemelhar a São José. Vatican.va, 10/12/2020).

Gostaria de terminar com a indicação de um livro e da transcrição de um ensinamento sobre o pai adotivo de Jesus. O livro é São José na vida de Cristo e da Igreja, do Pe. Maurício Meschler, SJ (Cultor de Livros). Obra preciosa que na primeira parte, traça o perfil modesto e humilde do patriarca de Nazaré, para a seguir apresentar a vida de São José na Igreja, o culto que os fiéis lhe prestam e as múltiplas graças que decorrem das suas virtudes. O ensinamento se deve a Santa Teresa d’Ávila, mística carmelita e doutora da Igreja, que diz: “E tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e me encomendei muito a ele […] Não me lembro até hoje de haver-lhe suplicado nada que não me tenha concedido. É coisa que espanta as grandes mercês que me fez Deus por meio deste bem-aventurado santo, e dos perigos de que me livrou, tanto de corpo como de alma; que a outros santos parece que lhes deu o Senhor graça para socorrer em uma necessidade; mas a este glorioso santo tenho experiência de que socorre em todas, e quer o Senhor nos dar a entender, que assim como a ele esteve submetido na terra, pois como tinha nome de pai, sendo guardião, nele podia mandar, assim no céu faz o quanto lhe pede”.

Aprendamos também nós, neste Ano Josefino, a recorrer, ainda com mais fervor, a São José e peçamos a ele que alcance de Deus a graça de imitarmos suas virtudes. Amém!

Fonte: CNBB

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