A esperança que nos faz ver horizontes

Publicado em: 6 abril 2020

A carta aos Hebreus nos define brevemente a esperança como uma “âncora para nossa alma, tão segura quanto sólida, que penetra para além do véu, lá onde Jesus entrou por nós, como precursor…” (Hb 6,19-20).

Essa imagem paulina da âncora é usada pelos primeiros cristãos e encontrada nas catacumbas e, no período das perseguições, usada como representação da cruz de Cristo, sinal de esperança do cristão.

Nesse sentido, tomando essa metáfora, podemos dizer que a esperança é aquela realidade que nos dá suporte, segurança e nos anima e nos faz enxergar para além da realidade, sobretudo, nas situações de adversidade da vida. Quem não tem esperança se desespera! Costumamos dizer: “amanhã será melhor”, “quem espera sempre alcança”.

A esperança não é uma negação nem sublimação da realidade. Está calcada profunda e densamente no chão da vida e dos acontecimentos e nasce de uma tensão entre o real, com suas vicissitudes, e o desejo humano de superação. É a moção da alma iluminada pela força transcendental e do crer que move o humano e o faz superar realidades que, aparentemente, seriam impensáveis e a dar significado ou ressignificar as coisas.

É a centelha que nos faz atravessar a escuridão, superar nossos medos e inseguranças, com a certeza de que haverá luz. Esperança é inquietude pacienciosa que nos faz movimentar e, com olhar de sabedoria, intuir o que está por detrás das curvas das estradas da vida e a nos preparar para continuar o caminho, vendo sempre novas possibilidades. Esperança é olhar e projetar o mundo com os olhos de Deus.

Shutterstock.
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Esperar. Este verbo não é apreciado pelo ser humano pós-moderno que vive em um contexto marcado pela velocidade e deseja realizar tudo aqui-agora, de modo imediato. Assim, a esperança é virtude que se contrapõe ao imediatismo. A esperança é fecunda, o imediatismo é fugaz, enfraquecedor, estéril.

Em certo sentido, a grande crise existencial que ocorre, nos últimos tempos, toca diretamente nosso tendão de Aquiles, pois, de uma forma ou de outra, somos imediatistas. Quando fomos forçados a parar e a esperar, pois o que se passa, está fora de nosso controle, sentimo-nos desamparados.

Neste vazio e sensação de desamparo, surge a esperança como imperativo que nos faz tomar nossa existência nas mãos e a gestar no coração e no espírito forças que nos permitem fazer de nossa espera, não espera passiva, mas fecunda, que nos proporciona entrever um mundo novo de possibilidades e nos dar coragem de seguir o caminho e continuar a viver. Um ser humano sem esperança mata em si o seu próprio espírito.

Quem sabe seja o tempo propício para nos perguntarmos: o que esperar de nós mesmos? Do mundo? De Deus?

Certamente, a resposta não será imediata, mas gerada como rebento no ventre materno que provoca tanta expectativa e tamanha espera e, ao vir à luz, chora e, ao mesmo, tempo, encanta, provoca alegria, porque é novidade que veio habitar o mundo.

A esperança nos coloca ativos em nossas buscas, não em sentido imediato, mas de horizonte transcendental que se concretiza na imanência, chão real da história, onde habitam homens e mulheres que esperam.

A esperança é derivante da paciência divina que nos espera sempre e enche nosso coração de fé, por isso, não nos sentimos abandonados, tirando-nos, desse modo, das inseguranças e nos dando a certeza de que iremos alcançar o que esperamos. Esperar em Deus, é abandonar nele, para que ele nos console, em sentido literal, coloque o chão sob nossos pés. Então, podemos sempre esperar “enquanto houver sol…”.

Perfil do Padre Rogério Gomes no Lattes.

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