O bispo acordou no Paraíso

Durante as visitas pastorais Dom Manoel se viu diante de grandes dificuldades e algumas inusitadas. Ao se despedir de Rio Paranaíba o senhor bispo se dirigiu para Arapuá, a mais nova paróquia da diocese. Padre Lombrana se encarregou de conduzir o bispo até a paróquia em seu fordinho, numa estrada em construção. Num relato de Dom Manoel o carro enguiçava, atolava e anoiteceu com carro atolado. Sem socorro, o Pastor se sentiu como uma ovelha perdida e pôs-se a rezar “Kyrie Eleison, Christe Eleison.” A solução foi dormir dentro do carro, enquanto os dois padres da comitiva dormiram debaixo de uma árvore.

Dom Manoel se lembrou do roceiro quando canta:” Eu nasci naquela serra/ Num ranchinho beira- chão/ Todo cheio de buraco/ Onde a lua faz clarão…” visto que as cortinhas do fordinho eram cheias de buracos. De manhã, como na voz do sertanejo “Quando chega a madrugada/ Lá no mato a passarada/ Principia o barulhão…” foi acordado pelo João de Barro. Dom Manoel e os padres foram tomar café com os vaqueiros que se preparavam para a lida do campo. Perguntou pelo nome do riacho e foi informado que se chamava “Paraíso”, ao que Dom Manoel respondeu: “Passei a noite e acordei no Paraíso.”

O dono da fazenda, ao amanhecer, se desculpou pela falta de socorro e ofereceu almoço para todos. Com uma junta de bois retirou o carro do atoleiro e o arrastou até o alto da serra. Dizem que Dom Manoel abençoou o Riacho Paraíso com a mão canhota e seguiu viagem para Arapuá.

Paróquia de Arapuá

Um enxame de abelhas deu origem ao nome de Arapuá ao pequeno povoado. Com o crescimento do povoado os fazendeiros Luiz Cassiano e Francisco Barbosa doaram terrenos para a construção de uma capela em honra de São João Batista do Arapuá. À chegada em Arapuá o Senhor Bispo foi recebido com festas pelos moradores. Como sempre, Dom Manoel abençoou os fiéis e no dia seguinte celebrou missas, atendeu confissões, fez crismas e casamentos.

Os esforços do Padre Guarino foram decisivos para que Dom Manoel criasse a paróquia de Arapuá e nela trabalharam os vigários: Padre Omar Nunes, João Nonato e Padre Josimas Cerqueira. A paróquia contava com três capelas: Nossa Senhora da Abadia (Pouso Alegre), Nossa Senhora do Carmo (Pimentas) e São José dos Quintinos. Segundo consta, a primeira missa foi celebrada no final do século XIX pelo padre Heriberto Antônio Foedertofes. Dom Manoel já havia visitado Arapuá em 1925,1927, 1937 e 1939. A visita pastoral rendeu muitos frutos com a formação do Apostolado da Oração, Congregação Mariana, Sociedade de São Vicente de Paulo.

O patrimônio de Arapuá constava de uma casa paroquial no valor de 2:000$Réis. As festas religiosas em honra de São João Batista, Nossas Senhora da Abadia, Nossa Senhora do Carmo, São José e São Sebastião atraiam pessoas de toda região e que rendiam contribuições para a OVS cuja caderneta possuía um valor de 18:000$Réis. Como em quase todas as paróquias da diocese os jornais que circulavam eram: A Luz, Lar Católico, O Diário e no povoado existia uma Igreja Evangélica, não existindo Centro Espírita. Na região de Arapuá Dom Manoel visitou: Pimentas, Água Limpa, Nossa Senhora do Carmo da Serra, Jardim.

Como em todas as visitas pastorais uma multidão esperava Dom Manoel. Missas, confissões, Casamentos, Crismas eram realizadas. Escreveu Dom Manoel: “quem viaja por esses sertões tem uma impressão de que está fora do Estado ou até mesmo do País. São pessoas humildes, religiosas e cheias de fé. faltam escolas para a população, embora o governo cobre impostos de todas as pessoas. É vergonhoso o que se passa nesta região.” Em sua caminhada Dom Manoel se dirigiu para as outras paróquias e capelas da região.

De São José dos Quintinos para Areado e Região

Antes de Areado o Senhor Bispo, acompanhado do professor Leôncio Ferreira, passou por São José dos Quintinos onde não havia ninguém a esperá-lo. Ao correr a noticia da presença do ilustre visitante houve a aglomeração do povo e não faltaram convites para um jantar, cafés e para outras visitas. Durante a missa foram crismadas mais de 30 crianças.

Dom Manoel aproveitou a visita para conhecer a plantação de fumo, farta na região, que era conhecido por “Fumo da Capoeirinha” sendo apreciado pelos mineiros. Diz a história que o senhor bispo, embora não fumasse, trouxe algumas cargas de fumo para presentear seus amigos de Luz, entre os quais Dr. Josaphat Macedo.

Ao amanhecer, Dom Manoel partiu rumo a Areado e teve que passar pelos rios São Bento e Areado onde ele e comitiva ser perderam pelo caminho. Um dos guias, que havia ido à frente, notou a demora e saiu à procura do bispo e dos padres. Encontrou-os perdidos. Arranjou um menino, que nunca havia ido à igreja e nem sabia o que era um bispo, para guiá-los até a próxima parada.

Para não atrasar mais ainda a viagem Dom Manoel montou na garupa do menino e seguiu viagem. Disse Dom Manoel: “faltou uma máquina fotográfica para perpetuar tão genial quadro.” No ponto de parada um excelente café esperava a comitiva e almoço para reanimar a todos. Conta que ao servir o almoço e vendo um prato diferente Dom Manoel perguntou: “Que prato é este? Língua de Porco, senhor bispo. Não como nada que sai da língua de animal,” disse Dom Manoel. “Não se preocupe, vou fritar alguns ovos para o senhor.” Respondeu a cozinheira. Após o almoço a comitiva seguiu para Areado onde uma multidão aguardava a chegada do ilustre prelado sendo saudado pelos senhores Estevam Nepomuceno e Arlindo Porto. À noite houve missa e adoração ao Santíssimo. Durante a visita, que durou três dias houve mais de 1.300 crismados, batizados, casamentos e contribuições de quase 1:000$Réis. Ao fim da visita Apostólica de Areado o destino era São Gonçalo. Acompanhado do senhor Henrique Barcellos, maior produtor de fumo da região, pernoitaram na fazenda de Francisco Venâncio, outro produtor de fumo. No dia seguinte, por entre produção de fumo, sob um sol quente e muito pó chegaram a São Gonçalo, onde mais de 100 cavaleiros e um carro de boi, todo enfeitado, levou o bispo até o povoado.

Dom Manoel foi ovacionado pela multidão com flores e muitas crianças presentes. Constantino Dutra, um comerciante do povoado de Moradinha, levou a banda de música para agradecer a visita do bispo. A banda executou: “Coração Santo, Queremos Deus e outras”. Dom Manoel emocionado deu a bênção apostólica, agradeceu a recepção e de cima do carro de boi rezou a oração da Ave Maria, visto que a noite já chegava. Durante a visita, que durou por cinco dias, mais de 6.000 pessoas estiveram presentes no povoado. Foram distribuídas mais de 2.000 comunhões, cerca de 1.500 crismas. O pó da viagem e o cheiro do fumo levaram Dom Manoel a pegar uma grande constipação obrigando o senhor bispo a diminuir o ritmo das visitas.

Depois das visitas à região, que duraram mais de três meses Dom Manoel voltou para Luz e para se recuperar da gripe, uma canja de galinha preparada por sua irmã Dona Bembem, o aguardava. Depois de alguns dias de descanso era hora de se pensar na implantação da comarca na sede do bispado. Outras visitas e a comarca de Luz são assuntos para outras crônicas.(Obs: As capelas e paróquias citadas pertencem hoje à Diocese de Patos).

Fontes: Arquivo Mitra Diocesana e Livro o Pastor de Luz

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