Dom Manoel – O Pastor de Luz

Fui buscar no livro O Pastor de Luz, autoria de Dom Belchior, lançado em 1984 por ocasião do centenário de nascimento de Dom Manoel, o título para esta crônica. Conheci o primeiro bispo de Luz em 1958 quando passei a ajudá-lo, como coroinha em suas missas, cujas celebrações ocorriam na capela existente ao lado do Palácio Episcopal. Conheci, quando coroinha, vários padres da diocese entre os quais me lembro: Padre José Lara, Cônego Ivo, Padre Jonas Ferreira, Monsenhor Aparecido, Monsenhor Alfredo, Monsenhor Omar, Monsenhor Geraldo, Padre César de Carvalho, Padre José Lima e Padre José Martins, que anos depois se tornariam bispos de Sete Lagoas e Porto Velho. Segundo relato os primeiros sacristãos de Dom Manoel foram: André, Cotegipe, Sebastião da Costa Veloso, Chico Cotegipe e Pedro Coimbra. Quando Sebastião Veloso foi convocado para a Segunda Guerra Mundial visitou Dom Manoel pediu sua bênção e proteção divina para partir para a Europa. Dom Manoel o abençoou e lhe deu as medalhas de São Rafael e da Medalha Milagrosa e disse as seguintes palavras: “Estas duas medalhas lhe protegerá e serão as bênçãos para o seu retorno a Luz com saúde e vitorioso. Que Deus lhe proteja Pracinha Sebastião.” O colunista tentará contar um pouco sobre Dom Manoel, por ocasião do cinquentenário de seu falecimento.

Família Nunes Coelho – Origem de Dom Manoel

om Manoel é descendente de família tradicional da região de São Miguel e Almas (atual Guanhães).  O Capitão Francisco Nunes (bisavô de Dom Manoel) era negociante, fazendeiro e tinha uma fábrica de ferragens em sua fazenda. Foi subdelegado, Juiz de Paz e Presidente da Câmara Municipal. Deixou muitos filhos entre os quais se destacou o Tenente Joaquim Nunes Coelho (avô de Dom Manoel), casado com Francisca Eufrásia de Assis, fazendeiro e um dos primeiros colonizadores que aportou em Virginópolis nas eras de 1838. Foi o primeiro Juiz de Paz de Virginópolis. O casal teve muitos filhos entre os quais Miguel Nunes Coelho casado com Dona Ambrosina de Magalhães Barbalho e que se tornaram pais de Manoel Nunes Coelho Sobrinho e de Consuelo Nunes Coelho que anos depois seriam no Aterrado Dom Manoel e Dona Bembém. A família Nunes Coelho é calculada em mais de 10.500 descendentes. (Fonte: livro Arvore Genealógica da Família Coelho, de: Ivânia Batista Coelho)

O Vigário de Sant’ana do Suassuy

Manoel Nunes Coelho Sobrinho nasceu em Virginópolis em 1884. Aprendeu a ler na escola de sua terra natal e por falta de recursos financeiros andava sempre descalço. A sua inteligência em aprender as primeiras letras e incentivado pelo padrinho o levou a estudar no Seminário de Diamantina. Acreditava ele que, como padre, seria um instrumento de Deus para ajudar os pobres de sua terra natal. Com brilhantismo, embora sempre adoentado, cursou Humanidades, Filosofia, Teologia e em todas as etapas recebeu elogio de seus professores, principalmente do Arcebispo de Diamantina Dom Joaquim Silvério. Para se tornar sacerdote o Direito Canônico exigia uma idade mínima de 24 anos. Ao concluir os seus estudos o teólogo Manoel Nunes foi dispensado dessa exigência e no dia 7 de abril de 1907, aos 23 anos, recebeu a ordenação sacerdotal na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina, com a presença de sua mãe Dona Ambrosina, o pai havia falecido alguns anos antes e com a participação de seus irmãos e familiares. Pelas mãos de Dom Joaquim Silvério de Sousa o teólogo Manoel Nunes se tornava “Sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech”, (Sacerdote para sempre) ou simplesmente Padre Manoel Nunes. Sua primeira Missa solene aconteceu em sua terra natal no dia 7 de julho de 1907. Designado para trabalhar na pequena vila de Sant’ana do Suassuy, atual Coroaci, era chamado carinhosamente por

seus paroquianos de Padre Nelo. Seu apostolado em Sant’ana começou pelos pobres com o movimento vicentino organizando as Conferências de São Vicente e Nossa Senhora das Vitórias. Fundou a congregação das Mães Cristãs, Legião de São Joaquim, imprimiu a Folhinha Eclesiástica e a Revista Vesper para ajudar na instrução dos fiéis. Construiu uma Igreja no lugar da antiga capela e uma Casa Paroquial para ser a moradia dos padres. Seu dinamismo o levou a ser convidado pelo Arcebispo de Diamantina a viajar pela Europa, Egito, Terra Santa e participar do Congresso Eucarístico em Lourdes, onde adquiriu bons conhecimentos e experiência apostólica. Pelos bons serviços prestados à Igreja de Sant’ana de Suassuy foi nomeado pelo Papa Bento XV bispo da recém-criada Diocese do Aterrado.

De Sant’ana para o Aterrado

Após ser sagrado bispo, Padre Nelo passou a ser chamado de Dom Manoel Nunes Coelho, tendo sido empossado na Diocese do Aterrado em 10 de abril de 1921. Adotou como lema episcopal “Fragilitati Nostrae Praesidium” (Proteção para Nossa Fraqueza) pedindo a proteção de Nossa Senhora do Carmo, da qual ele era devoto.  Dirigiu a Diocese do Aterrado e conduziu o seu rebanho seguindo as palavras de Cristo: ”Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas.” (João 10,11). Após 39 frente à diocese e se sentindo fragilizado solicitou ao Vaticano a nomeação de um coadjutor e o escolhido foi Dom Belchior Neto em 1960. Com quase 80 anos submeteu-se a uma cirurgia de próstata, com novos problemas de saúde. Perdeu aos poucos todos os sentidos, a começar pela vista, audição, a fala e a possibilidade de andar. Seus últimos anos de vida foram consumados no sofrimento e sempre dizia: “Deus me deu tudo, tudo pode tirar, que Deus seja louvado.” Em novembro de 1966, após uma crise forte, acreditava que seriam os seus últimos instantes. Recuperou suas forças se dirigiu a Dom Belchior com o pedido: “Eu quero que meu último suspiro seja um muito obrigado a Deus por tudo que Ele me deu… mas acrescentou… não! Guarde bem: Quando vir vários números sete seguidos pode estar certo, é nesse dia que eu vou!” De fato, aos 7/7/1967, Deus o chamou. Faleceu tranquilamente entregando o seu espírito ao Criador, em paz, no mesmo dia e horário em que completava 60 anos de sua primeira Missa Solene. Os sinos da Catedral em tom de tristeza anunciaram para toda a diocese o seu falecimento. Dom Manoel foi um grande apóstolo do bem, um herói da pátria, um grande sacerdote destes que o mundo precisa. Pregou ao seu Clero e ao seu rebanho com exemplo de sua vida e eloquência irresistível. A sua alma foi consumada em todas as virtudes. A sua inteligência foi consumada nas ciências eclesiásticas e o seu coração foi consumado na bondade. Ao seu funeral compareceram autoridades religiosas, políticas e o povo que ele tanto amou. Seu sepultamento, após percorrer as principais ruas da cidade, ocorreu na capela funerária ao lado do presbitério da Catedral. Dom Manoel viveu e morreu na pobreza como Servo de Deus e em seu testamento não deixou bens materiais. Seu legado foi exemplo de simplicidade, humildade, pobreza total na vida e o caminho da santidade. As palavras de Paulo Apóstolo: “Combati o bom combate. Terminei a corrida, Guardei a fé” se aplicam a Dom Manoel. Como bispo ele foi o Pastor de Luz que guiou o seu rebanho pelos campos da seara, realizou a sublime missão que o Senhor lhe confiou e em orações pedia: “Ó Senhor enviai operários para os campos da Messe de Luz.”.

(Fontes: O Pastor de Luz (Dom Belchior) e Flores do meu Caminho (Cônego César Alves de Carvalho)
Prof. Faustino de Oliveira Filho – faustinofilho@uai.com.br

Compartilhe com seus amigos: