Da pequena capela à Paróquia do Aterrado

Chegar aos 100 anos é empreender uma travessia pelo mundo lá fora e dentro de si. É da vida: o tempo e a lucidez se encontram com o passar dos anos. Poucas pessoas chegam a completar 100 anos. Algumas instituições vão sofrendo modificações ao longo dos anos e dirigidas por várias gerações até completar um século de existência.

A Diocese de Luz, mesmo dirigida por mãos humanas, passou por esse processo de transformação para atingir um século de vida em pleno vigor físico e espiritual. São cem anos de história e uma data que precisa e merece ser comemorada. Não há como explicar o milagre da longevidade, nem o milagre da multiplicação e nem a lucidez.

A Igreja de Luz pode ser comparada a uma árvore grande, frondosa, bem plantada, firme no chão com suas raízes profundas, seu tronco forte e seus galhos contendo flores e frutos deliciosos. E o resultado não podia ser outro senão uma colheita abundante o que vem acontecendo ao longo de sua trajetória. Consagrada a São Rafael a Igreja de Luz leva as palavras de Cristo a todos os cantos de seu território. A história da Diocese começou bem antes com a “Picada de Goiás” e a descoberta de ouro na bacia do Rio São Francisco.

Entre os séculos XVIII e XIX a Diocese de Mariana já registrava em seus anais a freguesia do Aterrado e ponto de apoio aos bandeirantes. Com o aumento da população no povoado acabou sendo elevada à paróquia com o nome de Nossa Senhora da Luz do Aterrado. O sopro do Espírito Santo já preparava o caminho para uma futura diocese nos oeste mineiro. Voltemos aos séculos XVIII e XIX.

Cocais e Camargos – Latifundiários de Bambuí e do Aterrado

A origem do aterrado se reporta à luta entre dois grandes latifundiários cujas fazendas se denominavam Cocais e Camargos e se estendiam desde a freguesia de Bambuí até a freguesia do Aterrado. Camargo, os portugueses, são ascendentes dos Camargos do Aterrado. Eram escravagistas, predadores de índios no Território das Missões no Sul do País, ricos e poderosos. Os Camargos dominaram a política da Província de São Paulo por mais de cem anos em luta constante contra os membros da família Pires.

Eram dois partidos adversários: o dos Camargos e o dos Pires. Os Camargos são descendentes do pioneiro João Ramalho, figura enigmática dos primeiros tempos da colonização, que se casou com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá como ele a chamava. Foi “convertida” e batizada com o nome de Isabel Dias pelo jesuíta Padre Nóbrega. Ele também foi catequizado e batizado com o nome de Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem ao donatário da Capitania de São Vicente, que desembarcou em Santos em 1532, na praia de Bertioga. De João Ramalho e Bartira nasceram doze filhos entre quais notamos o nome de Francisco Ramalho de Macedo que fez parte da Bandeira que partiu de São Paulo, desbravando Minas Gerais, até chegar a região de Pitangui. Em Pitangui constituiu família que anos depois alguns descendentes mudaram para Luz dando origem à tradicional Família Macedo, cujo patriarca é Antônio Gomes de Macedo. (Fontes:  Guaracy de Castro Nogueira e Edelweiss Teixeira).

O nome do Coronel João Teixeira de Camargos, embora não sabemos se é a mesma pessoa, aparece pela primeira vez, no século XVIII, como proprietário da Fazenda Vista Alegre, na região de Contagem e Belo Horizonte. Em sua área havia intensa produção de farinha de mandioca e polvilho. Atualmente a antiga sede da fazenda é tombada e o patrimônio pertence a Fundac (Fundação Cultural de Minas). Provavelmente o guarda mor João Teixeira de Camargos, casado com Maria Antônia Teixeira, veio de Nossa Senhora de Congonhas do Campo, tendo sido morador em sua fazenda na freguesia de Nossa Senhora Santana de Bambui (f.1819).  Do casamento nasceram sete filhos e todos herdeiros do pai em 1816 (testamento do Guarda Mor, arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Livro 27- F.76).

O coronel João Teixeira recebeu da coroa portuguesa uma sesmaria de meia légua de terra entre os ribeirões Jorge do Meio e Jorge Pequeno, as fazendas Córrego da Velha, Boa Vista, Limoeiro e Veredas. Seus domínios começavam em Bambui, passando por Córrego Danta até atingir o Aterrado. O seu principal vizinho era o coronel Caetano Marques (Rodrigues?) Tavares conhecido como Coronel dos Cocais, do qual não se tem muitos registros. Sua sesmaria começava nas paragens dos Cocais e Mandassaia e havia ingressado na região por Bambui, conforme carta de requisição de sesmaria da Fazenda Cocais, Freguesia de Santa Ana de Bambui, datada de dezembro de 1799 em Vila Rica e obtida em agosto de 1801. Consta ainda nos registros o nome de Albino José Pinto Coelho, como proprietário da Fazenda dos Cocais. (Fonte: Waldemar de Almeida Barbosa).

Promessa a Nossa Senhora – Uma história que todos conhecem

Por não haver uma divisa definida, já que as terras perdiam de vista, os proprietários das fazendas Cocais, Coronel  Caetano Marques (Rodrigues?) Tavares e da Fazenda Camargos, João Teixeira Camargos viviam em constantes brigas por causa dos extravios de gado e outros animais. O descontentamento chegou a tal ponto que a qualquer momento poderia haver morte de um lado ou do outro. A esposa do Coronel João Teixeira, senhora Maria Antônia Teixeira, fez uma promessa a Nossa Senhora para que o conflito fosse solucionado. Foi proposto que o Coronel Camargos e o Coronel Tavares saíssem de suas casas ao amanhecer do dia e se dirigissem a respectiva casa do outro.

No local onde houvesse o encontro seria o marco divisório de suas propriedades, o que ocorreu perto do Ribeirão Jorge Pequeno. Resolvido a pendenga ficou combinado entre os dois coronéis que ali fosse erguida uma capela com o nome de Nossa Senhora da Luz do Aterrado para fazer cumprir a promessa da esposa do Coronel Camargos, senhora Maria Antônia. Ali foi celebrada uma missa em agradecimentos pela paz reinante entre os dois latifundiários. A área compreendida entre o Jorge Pequeno, cabeceiras acima em direção ao Açudão, passando pelo espigão do Serrote ao norte no Refêgo foi doada à Igreja de Bambuí. A dois quilômetros de distância da capela havia um “olho d’água” e um aterro para que se elevasse a água não só para a cultura como para abastecer o povoado que se formava ao redor da capela. Por esse “Aterrado do Açudão” passava a estrada nos terrenos da “Granja do Aterrado” propriedade do Farmacêutico Antônio Gomes de Macedo. Do “Açudão” descia um rêgo de água, após percurso subterrrâneo aflora no Açudinho, onde hoje se encontra a Praça Marcos Evangelista, que era o centro comercial do povoado. Esse “Rêgo” era conhecido como “Córrego do Açudinho” e ia até a “Biquinha” fonte de abastecimento da população. A existência deste “aterro” fez o povoado se chamar “Aterrado” e a freguesia receber a denominação de Nossa Senhora da Luz do Aterrado.

A população do Aterrado no inicio do século XIX era constituída de cerca de 900 habitantes em sua maioria católica. Dom Viçoso, bispo de Mariana observou a necessidade de se colocar mais um marco divisório em sua diocese. Em 1856 a freguesia de Nossa Senhora da Luz do Aterrado se tornou paróquia, desmembrada de Bambuí e Padre Manoel Martins Ferraz foi o seu primeiro pároco. Depois vieram os padres Vigilato, Padre José, Padre Isaias, Padre Fortunato e Padre Vicente.  A primitiva capela se localizava onde hoje se encontra o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Como a Paróquia foi palco para se tornar sede de uma diocese é assunto para outras crônicas.

Fonte: Jornal de Luz
Prof. Faustino de Oliveira Filho
faustinofilho@uai.com.br

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