A história sob um olhar diferente

A história da diocese de Luz vem sendo contada há anos de muitas formas. Segundo o escritor José Paulo Paes “Para que as histórias permaneçam vivas é preciso recontá-las” e o colunista tem procurado contar a mesma história da diocese, sob um olhar diferente. No centenário da diocese (1918/2018) se faz necessário contar e recontar para que a história permaneça viva. Após um descanso merecido, por mais de dois meses em Luz, Dom Manoel voltou para suas visitas pastorais e depois das chuvas, que eram intensas no período pascal, se dirigiu a Bambuí. As histórias de Luz e Bambuí se cruzam desde que os donos das fazendas Cocais e Camargos, Coronel Caetano Marques e João Teixeira, colocaram divisas em suas áreas e ergueram uma capela que, anos depois, se tornou Paróquia de Nossa Senhora da Luz. Em sua visita pastoral no ano de 1914 a Bambuí, Dom Silvério consultou Padre José de Paiva sobre a possibilidade de se criar na paróquia a sede episcopal. Padre Paiva não quis assumir o compromisso por ser grande a responsabilidade.

Bambuí – Um pouco da história e a visita de Dom Manoel

A origem do topônimo de Bambuhy registra, entre outros significados de Rio dos Bambus, Rio das Águas Sujas e Rio dos Gravetos Torcidos. Desde o século XVIII a exploração de ouro na região atraia garimpeiros e desbravadores dispostos a tomar posse das sesmarias. Os primeiros exploradores foram o Capitão-mor João Veloso de Carvalho e Antônio Rodrigues Velho que vieram de Pitangui e enfrentaram a resistência dos índios Caiapós e dos escravos que formavam os quilombolas, sendo o mais famoso da região o do “Ambrósio.”

Os povoados que surgiram na região fez com que a Igreja, através dos padres jesuítas, construísse capelas para os cultos religiosos. Reputa-se ao Padre Toledo e ao mestre de campo Inácio Correia Pamplona a expedição oficial que culminou com a conquista da região de Bambui. Os quilombos e os caiapós foram dizimados e alguns historiadores consideram Inácio Pamplona o fundador de Bambui. Na metade do século XVIII Bambui foi elevado a freguesia tendo padroeira Sant’ana, mãe de Maria Santíssima e o primeiro vigário parece ter sido Padre José Rodrigues de Oliveira. No inicio do século XIX padre Manoel Francisco de Sousa, nomeado para a freguesia, tratou de construir uma capela, pois, a primeira missa foi celebrada debaixo de uma gameleira. Ao ser elevada à Paróquia a Capela de Sant’ana incorporou Córrego Dantas, Esteios e Aterrado, esta 1856 se tornou Paróquia de Nossa Senhora da Luz, desmembrando-se de Bambui. Como em todas as visitas o bispo foi recebido com festas pelas autoridades, pelo povo e pelas associações religiosas existentes na paróquia.

A contribuição para a OVS, em favor do seminário, atingiu uma soma significativa. Durante os sete dias que esteve na paróquia de Bambuí, Dom Manoel visitou as capelas de Desempenhado, Medeiros, Rincão e Tapirai. Visitou ainda a construção do Leprosário e Santa Casa dirigida pelas Irmãs Vicentinas. De Bambuí o senhor bispo se dirigiu para Piunhi passando antes por São Roque de Minas. Mesmo debaixo de chuvas, a visita pastoral à Paróquia de São Roque rendeu bons frutos espirituais e materiais. Ao subir a Serra da Canastra, debaixo de chuvas e trovões, Dom Manoel se lembrou de Moisés no Monte Sinai e com seu bom humor disse: “Deus qui tangit montes et fumigant”, “Deus que faz tremer e inflamar os montes manda essa chuva.” Passou por Boqueirão a caminho de Piumhi.

A Capela de Nossa Senhora do Livramento

A paróquia de Piumhi, assim como Campo Belo, se ofereceu a Dom Silvério para ser sede episcopal e criação de uma diocese na região. A proximidade com as dioceses de Pouso Alegre (1900) e de Campanha (1907) fez com que Dom Silvério não aceitasse a oferta. Seguiu Dom Silvério em sua peregrinação pelo Oeste de Minas. A história de Piumhi se reporta ao século XVII com as brigas existentes entre dois grandes fazendeiros: Capitão Luís Antônio Vilela e Fernão Alves dos Santos.

A fixação das divisas era motivo de lutas constantes entre os dois. Com a descoberta de ouro e diamante na região os garimpeiros e faiscadores formaram pequenos povoados a procura do metal, sendo comandados por Manoel Marques de Carvalho. Na região do garimpo, como a maioria dos garimpeiros fosse católicos, Padre Marcos Pires Corrêa propôs aos habitantes que construíssem uma capela e conseguissem o necessário para a celebração dos ofícios divinos.

O local escolhido foi a terra em litígio entre as famílias do Capitão Luis e de Fernão Alves que cederam a área conflitante.

A capela erigida se chamou de Nossa Senhora do o, separando, desta forma, as duas fazendas e ali foi celebrada a primeira missa. Piunhy em língua indígena significa “Rio dos Mosquitos” em alusão às muriçocas e mosquito pólvora, encontrados em grande escala na região.

A visita de Dom Manoel a Piumhi e Capitólio

Antes de chegar a Piumhi Dom Manoel passou por Desempenhado, acompanhado de Padre Augusto, se hospedou na casa do senhor João Julio que o recebeu com alegria. Não faltou o leite cru servido em “cumbuquinhas” e nem o famoso queijo da Canastra, servidos por Tia Luíza. Ao amanhecer do dia o bispo se dirigiu para Piumhi em cima de um carro de boi para vencer os elevados barrancos que rodeiam o Rio São Francisco e a Serra da Canastra. Nos arredores da cidade Padre Mário Silveira e as autoridades esperavam em dois carros a comitiva de Dom Manoel. Como em todas as paróquias a chegada do bispo era motivo de festas e abrilhantado pela corporação musical de Campo Belo.

A paróquia de Nossa Senhora do Livramento, desde a primeira capela, nunca ficou sem assistência religiosa. Eram varias as associações católicas existentes e a casa paroquial era enorme, mais servindo para um colégio, segundo relato de Dom Manoel. A paróquia de Piumhi sempre colaborou com as Obras de Vocações Sacerdotais (OVS) com quase 14:000$000 (Quatorze Mil Contos de Réis).

Durante os cinco dias que permaneceu em Piumhi, visitou as capelas de Araúna, Capetinga e Macaúbas. Ao se despedir de Piumhi agradeceu a recepção e invocou as bênçãos de Nossa Senhora do Livramento, de São Rafael e se dirigiu para a Paróquia de São Sebastião de Capitólio onde uma multidão o aguardava. Foi recepcionado pelo Doutor Recenvindo Gontijo e se hospedou no hotel do Senhor João Lourenço. As principais ruas estavam enfeitadas e faixas com os dizeres: “Salve Dom Manoel!”, “Bem vindo Pastor do Aterrado” entre outras.

A contribuição para a OVS atingiu Doze Contos de Réis, quantia tão grande que assim falou Dom Manoel durante a missa: “Se seis paróquias do tamanho de Capitólio fizessem doações desse vulto, as vocações sacerdotais iriam aumentar. Deus pague a generosidade de todos vocês. Que Nossa da Luz e São Sebastião lhes traga muita saúde.” Nas duas paróquias foram celebradas missas, batizados, crismas, confissões, casamentos e adoração ao Santíssimo que fizeram parte das festividades religiosas. Ao sair de Capitólio Dom Manoel seguiu em direção a Formiga.

Boa leitura!

Fontes: Arquivo da Mitra, livro: O Pastor de Luz, sites prefeituras de Bambui, Piunhi e Capitólio e portal da Canastra.

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