A energia chegou ao Aterrado

Ao tomar posse na Diocese do Aterrado, Dom Manoel trouxe consigo a experiência na construção da casa paroquial e a igreja matriz de Coroaci, o dinamismo, a juventude e a boa vontade para fazer crescer o arraial. Padre Parreiras, por sua experiência em construir o Palácio Episcopal e a Catedral, orientava o Bispo e o levava a conhecer as autoridades e moradores do povoado. Seguindo um planejamento, com o passar dos dias e adaptado à função de bispo, Dom Manoel anotava as necessidades do Aterrado e da diocese. Era um Pastor que cuidava dos bens materiais da diocese sem esquecer o lado espiritual dos fiéis. O Aterrado fazia parte do município de Dores do Indaiá, enquanto o vilarejo de Esteios fazia parte de Santo Antônio do Monte. As dificuldades para se resolverem problemas administrativos, burocráticos e políticos emperravam o crescimento do Aterrado. Dom Manoel, em reunião com os políticos Capitão Dú, Antônio Guimarães Macedo, Pedro Cardoso (Dr. Peri), Washington Gomes, Manoel Delgado e os empresários Ewerton Pereira, Orsini Batista Leite, Miguel Moreira e outros, explicava a necessidade de se implantar a energia elétrica no arraial. Mas como e onde, perguntavam todos. Dom Manoel não desanimava e montado num cavalo percorria os arredores do Aterrado, sempre acompanhado por Capitão Dú e Dr. Peri, para encontrar um lugar que tivesse queda d’água para a instalação de uma usina elétrica. Não encontrando a queda d’água propôs a construção de uma barragem no Ribeirão Jorge Pequeno, perto da atual ponte do Morro do Jorge. Os moradores do Aterrado poderiam, enfim, conhecer a energia elétrica, dar adeus às lamparinas e aos azeites de mamonas.

A construção da barragem

Escolhido o local, era necessário constituir uma empresa para que as obras tivessem início. A princípio, vozes discordantes não acreditavam na viabilidade e viam no projeto “uma loucura” do jovem bispo. Capitão Du, que conheceu usinas de energia em São Paulo e Rio de Janeiro, era uma liderança e entusiasta da ideia. A participação da Mitra Diocesana, através de Dom Manoel, ao entrar com mais de sessenta por cento no capital social da Empresa de Força e Luz do Aterrado, foi decisivo para que os políticos e empresários acreditassem no futuro da energia elétrica no Aterrado. As vozes discordantes começaram a ficar mudas. Era o Aterrado no caminho certo. Enquanto a barragem era construída, Dom Manoel se encarregava de adquirir os motores da marca Westinghouse com capacidade de geração em 100 kw e criar a linha de transmissão do Jorge até o Largo da Catedral. O prazo era curto, mas a ação dos políticos e a firmeza de Dom Manoel tornava tudo possível. Dom Manoel sempre dizia que a energia elétrica era um desafio pequeno para um modesto arraial, de grandiosas aspirações, que conseguiu formar um patrimônio para a criação da diocese, transformou a pequena capela numa catedral e com esforço titânico construiu o elegante palacete episcopal para mostrar às futuras gerações o que é o poder da vontade e o que se pode esperar de uma política séria.

 A bênção do maquinário – Primeira parte do empreendimento

Tudo era festa no Arraial do Aterrado, pois chegou o dia tão esperado e sonhado pela população. Sob as bênçãos de Nossa Senhora da Luz, Padroeira da Paróquia, e sob a proteção de São Rafael, Padroeiro da Diocese, o pequeno Arraial do Aterrado caminhava rumo ao progresso e buscava sua emancipação política. Populares se faziam presentes para admirar a grande represa sustentada por um aterro com mais de 200 metros de extensão por 5 metros de altura. Conforme programação, às 16 horas do dia 24 de dezembro de 1922, Dom Manoel, acompanhado de autoridades se dirigiu ao Ribeirão do Jorge Pequeno para a bênção dos maquinários. Coube ao Monsenhor Vicente, secretário diocesano, fazer as orações e dar a bênção às instalações. Foi paraninfo das instalações o senhor Coronel Pio Cardoso, residente em Bom Despacho, grande admirador, entusiasta e proclamador das gigantescas realizações do Arraial do Aterrado. Ao espocar dos fogos e músicas foi executado a primeira parte do empreendimento. Era aguardar a chegada da noite para as luzes serem acesas o que iria acontecer às 20 horas. A ansiedade tomava conta do povo enquanto o relógio da catedral (Santuário) anunciava a aproximação da hora.

A energia elétrica iluminou a Catedral

O largo da Catedral (atual santuário) foi tomado pela multidão que aguardava ansiosa pelo espetáculo da chegada da energia elétrica. Ali se encontrava toda a elite política, comerciantes e fazendeiros. Chegou finalmente a hora programada.  Em Gênesis (1,1-31) Dom Manoel buscou inspiração para que o largo da Catedral fosse iluminado e pronunciou “Fiat lux! (Faça-se a luz!) Et facta lux est”! “E a luz foi feita”). Como num relâmpago, o largo da Catedral ficou caprichosamente iluminado. Imediatamente a Banda Lyra Vicentina Aterradense põs-se a executar o Hino Nacional e o povo, em verdadeiro delírio e admiração, ovacionava a luz que acabava de ser ligada. Como em Isaias (9,2-6): ”populus qui ambulabat in tenebris vidit lucem magnam”, isto é: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”. O largo da Catedral saiu da escuridão da noite e se transformou numa luz do dia. Centenas de pessoas, que não conheciam a luz elétrica, entre lágrimas e aplausos junto ao coral cantavam a Nossa Senhora da Luz: “Mãe amorosa e gentil ilumina este chão da terra da Santa Cruz, com um divino clarão de vosso manto de luz.” O orador oficial da noite foi o médico Dr. Pedro Cardoso (Dr. Peri), que empolgado pelo entusiasmo do momento produziu uma verdadeira peça oratória, nos moldes do Padre Antônio Vieira no Sermão da Sexagésima. Em referência à Parábola disse: “Saiu o semeador, Dom Manoel, a semear e plantou em terras boas que é o Arraial do Aterrado. A semente rendeu o fruto da iluminação do arraial”. Relembrou os personagens que ajudaram o pequeno arraial: Cel José Tomás, Antônio Gomes de Macedo e a figura épica de Padre Parreiras à frente da paróquia desde 1904. Em seguida o Senhor Antônio Guimarães, representando a Cia. Penna & Guimarães, enalteceu àqueles que se esforçaram para dotar o Aterrado com este extraordinário melhoramento. A Missa do Galo, celebrada por Dom Manoel e Monsenhor Vicente foi abrilhantada pelo coral e pela Banda Lyra Aterradense. No sermão, Dom Manoel agradeceu os esforços de todos que se envolveram para que fosse possível trazer a energia elétrica para o Aterrado. Em oração pediu: “Ó Deus, que fizestes esta noite santíssima resplandecer com o fulgor da verdadeira Luz, que é o Cristo, nós vos pedimos, dê-nos força para continuar a levar o Evangelho a todos os povos da Diocese do Aterrado”. Ao final da missa, Dom Manoel anunciou que junto às autoridades do arraial iria lutar pela emancipação do Aterrado. A pujança comercial do Arraial se faz notar pelos anúncios no jornal “Luz do Aterrado”.

. Boa Leitura!  (Fonte: Arquivos da Mitra)

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